Na quinta-feira fui à terceira conferência “Portugal Sim ou Não” em Serralves.
Desta vez cheguei com 5 minutos de atraso, mas como tinha bilhete não estava preocupado. Quando lá cheguei, para minha surpresa, a sala estava cheia de tal forma que me sentaram nada mais, nada menos que na primeira fila ! Sim, aquela onde só havia gente de gravata e saia-casaco ! Já o disse no post sobre a outra conferência, e esta não foi excepção. O grosso das pessoas que lá estavam tinham entre 50 e 70 anos estavam “bem estabelecidas” na vida. Desta vez também havia alguns jovens universitários, o que acabou por ser relevante para o debate.
O tema era Economia e os convidados foram Artur Santos Silva, presidente do BPI, já com os seus 60/70 anos oriundo do Norte. E António Mexia, presidente da EDP, com os seus 50 anos (parecia mais jovem), oriundo de Lisboa. A moderadora era Helena Garrido do Jornal de Negócios.
O modelo seguido foi o mesmo da primeira conferência a que fui: o orador mais sénior ou importante dá uma palestra de 30 minutos (a tender para mais), seguido de 15 minutos de palestra (concordante ou discordante) do outro convidado e depois algumas perguntas do público.
Vou fazer a abordagem por temas, para ser mais fácil de seguir.
## Economia Côr de rosa
Admito que não sabia nada de nenhum dos convidados a não ser que eram importantes no contexto económico do País. Por isso fiquei admirado ao saber que Artur Santos Silva era um banqueiro e não um elemento do governo após um discurso de 30 minutos a enaltecer tudo o que se conseguiu economica-financeiramente no País nos últimos 2 anos. Foi um discurso mais positivo que os de Sócrates ultimamente ! 30 minutos a dizer que nunca tínhamos enquanto República tido um défice tão baixo e outros tantos indicadores óptimos.
## Poder do Sim
Após este quadro côr-de-rosa, veio António Mexia. Começou por agradecer a Serralves e dar o exemplo de competência e qualidade que é a marca Serralves.
Em seguida fez o discurso do “Poder do Sim”. A mensagem é que o optimismo e força de vontade vencem tudo. E nota-se que passa isso para a sua organização, pelo avaliar da campanha recente de marketing da EDP com a sua “Energia Positiva” (o que até é irónico porque qualquer Engenheiro sabe que a energia é negativa, uma vez que são os electrões de carga negativa que estão em movimento).
## Atrair
Ambos apresentaram a ideia de que o importante era criar a praia, e que as ondas hão-de vir (Jorge de Sena). Disseram que o que é preciso é atrair. Atrair gente. Atrair investimento estrangeiro.
Concordo com isso, atrair gente de qualidade, atrai mais qualidade. Já relativamente ao investimento estrangeiro sou mais desconfiado. Não acredito que qualquer investimento estrangeiro seja bom. Alguns, por serem inconstantes, trazem mais mal que bem, criando empregos rapidamente apenas para os extinguir de seguida deixando gente na rua.
## Instituições
Aproveitaram ambos a onda para dizer que é necessário ter confiança nas instituições e não as questionar tanto. Porque todas as instituições são compostas por pessoas que também cometem erros.
Não percebi bem qual o objectivo desta ideia. Imagino que se referissem à Justiça, que é constantemente criticada. No entanto soou-me a mim um bocado Salazarista: “Não devem questionar as instituições…”.
Mas questionar as instituições é o melhor que fazemos. Só assim conseguimos que elas se corrijam e mudem para melhor.
## Tamanho de Portugal
Mexia defendeu que o facto de Portugal ser pequeno não só não é uma desvantagem, mas é mesmo uma vantagem. Porque algo pequeno é mais ágil, porque muda mais rapidamente para novas direcções e sobretudo porque algo pequeno ganha mais, relativamente a grandes, com a abertura a um mercado global, sendo que tem mais a ganhar já que o mercado interno é pequeno.
Mas também disse que para ganhar temos de nos diferenciar. E para diferenciar temos de nos auto-conhecer. Saber que coisas novas fazemos bem, uma vez que os texteis típicos e fábricas normais são uma realidade em vias de extinção como um combate perdido para os Europeus de Leste e Chineses.
Acho que diferenciar é crucial. Diferenciar quer dizer fazer algo diferente, mesmo que o produto base seja banal, e fazê-lo com qualidade. Mas isso é mais fácil dito que feito.
## Utilizador Pagador
Outra mensagem que António Mexia passou foi que é 100% a favor do princípio do utilizador-pagador, sendo que paga mais quem gasta mais e quem não pode pagar é suportado pelo Estado. O princípio faz sentido a uma primeira vista, sendo que é teoricamente mais justo, assumindo que quem tem mais gasta mais. O problema é que não funciona assim (e isto ele esqueceu-se de dizer). Quem tem mais gasta menos em proporção porque tem economia de escala. Quem tem pouco continua a ter que gastar os mínimos, mesmo que não gaste nada. O aluguer do contador da electricidade. A assinatura do telefone. Chamem-lhe o que quiserem, isto é pago por todo o utilizador, mesmo que consuma zero.
Há um outro problema do princípio do utilizador-pagador. É que tem tendência para criar entropia ao empreendedorismo.
Se quanto mais eu gastar num empreendimento, mais vou ter que pagar, então é melhor não gastar mais de nada, é melhor não empreender.
## Impostos
António Mexia defendeu também que os impostos não deviam ser sobre o lucro ou sobre o trabalho (isso causa entropia sobre o empreendedorismo), mas sobre a energia. A teoria faz algum sentido. O que é escasso é a energia, logo era sobre isso que se devia pagar impostos (IRS). Mas rapidamente vi que o que ele estava a fazer era puxar a brasa para a sardinha dele. Como se a electricidade já não fosse cara demais hoje…
Ambos os convidados apontaram as mesmas falhas ao País que Jorge Sampaio tinha apontado e não me pareceu combinado:
## Educação
Toda a gente sabe que está mal e apoiando as políticas recentes ou não algo tem que mudar radicalmente, não adoptando estratégias de outros países (já se tentou isso e não resultou), mas qualificando mais os professores do Básico por oposição aos do Superior, porque é nas bases que se está a falhar. Na Finlândia os melhores professores com doutoramento vão dar aulas ao Básico. Cá, por oposição, os professores do Básico durante muitos anos nem sequer passavam do Bacharelato e ainda hoje os professores do Básico vêm do Politécnico e não da Universidade.
É preciso manter as pessoas na escola o máximo possível porque um licenciado ganha em média mais 500 euros que um não licenciado.
## Ordenamento do território
Simplesmente não existe. Há Lisboa e o resto. Com um Porto que cada vez menos se afirma e com o resto do país a viver de políticas centrais. Falou-se de descentralização, mas sem regionalização “porque somos muito pequenos”.
Concordo plenamente com esta perspectiva. Não faz sentido tomarem-se todas as decisões nacionais e locais em Lisboa, porque é lento, logo ineficaz, e porque não representa os interesses locais de facto. Por outro lado criar ministérios em locais diferentes do País só serviria para os ministros andarem a poluir o ambiente para trás e para a frente diminuindo ainda mais a eficácia. É importante que cada distrito tenha poder para decidir sobre coisas internas sem ter que ir a Lisboa, da mesma forma que tem que se submeter a políticas nacionais para haver coerência no território.
## Demissão das elites
Fiquei espantado quando ouvi António Mexia a falar deste tema, à semelhança do que Jorge Sampaio falou na outra conferência a que assisti. Eles que se podem considerar elites ! Bem, a mensagem é que as elites do País, sejam elas intelectuais, jet set ou simplesmente ricas, se demitiram de fazer o que quer que seja em prol do País e dos seus compatriotas. Falou-se por mais que uma vez de como o Tuga é invejoso de quem sobe na vida (é verdade) e de quem sobe não vida não contribui de volta para a sociedade (o que também é muito verdade).
Há inclusivamente quem diga que o Porto está no estado que está porque todas as suas elites e industriais poderosos se demitiram das suas funções sociais e simplesmente vão ganhando e gastando o seu dinheiro.
## O público
Depois de dois discursos claramente optimistas em que só apontaram as 3 falhas que referi anteriormente, eis que aparece o público, de uma forma que os convidados não estavam à espera. Perguntas do género “Concorda com o peso de Lisboa no resto do País?”, “Como é possível o ensino superior melhorar se as universidades não podem escolher os seus próprios alunos?”.
Falou também um senhor, aparentemente deslocado ali naquele lugar de gravatas (onde estava eu a destoar) a contar uma história da aldeia dele.
“Um dia um homem vai para o café da aldeia e aposta que consegue beber uma garrafa inteira de bagaço. Bebe-a e de seguida morre. A mulher no funeral diz-lhe o seguinte: Morreste, mas ao menos ganhaste a aposta.”
A história foi um paralelo com a política do governo actual que em dois anos conseguiu todos aqueles feitos, “mas a que custo vai ganhar essa aposta ? Se pelo caminho mata o povo ?”.
O mesmo senhor, não contente fez outra pergunta. Perguntou se era verdade que as taxas da electricidade íam subir devido a re-estruturação interna da empresa EDP.
Quando a palavra voltou para os convidados foi cómico.
“Faça favor” – dizia Artur Santos Silva.
“Não, não. Por favor” – dizia António Mexia.
Após duas outras destas, começou Artur Santos Silva. Retractou-se e disse que as políticas actuais de contenção têm mais que 2 anos e já estavam planeadas há muito.
De seguida respondeu António Mexia, um pouco desconfortável, dizendo que não há concorrência no mercado da electricidade porque sempre foi um sector de preços controlados que historicamente não subiram tanto quanto deviam subir. Agora, para a empresa se modernizar, procederem a reformas e pré-reformas a empresa precisava de dinheiro que vai resultar no aumento das taxas de electricidade.
Eu não sabia disto, mas assim confirmado fiquei chocado ! O utilizador agora tem que pagar pela re-estruturação de uma empresa que dá lucro todos os anos ? A re-estruturação de qualquer empresa deve ser feita a partir do seu próprio capital e não a partir do aumento de contas de quem já mal as pode pagar.
A sessão acabou por ser interrompida por ali, porque já era tarde.
## Nota final
Dois convidados que ganham várias vezes mais que o colaborador normal das respectivas empresas vieram pintar um quadro côr de rosa porque finalmente estamos no caminho da contenção financeira.
No entanto, não falaram do grave problema de disparidade de salários entre os ricos e os pobres e de medidas específicas sobre como sair desta situação sem ser “apertar mais o cinto”.
Por favor, comentem. Um debate é sempre mais saudável que apenas uma opinião ou relato.