Alugar sapatos
Esta é uma ideia que já tive há algum tempo, e que gostava de partilhar (e ser bombardeado por) os meus dois leitores-comentadores assíduos. E se alugássemos tudo quanto for bem material ? Não só carros e casas que só têm esse tipo de mercado porque são muito caros. E se alugássemos jogos de mesa ? E pratos ? E sapatos ? E casacos ?
Termos tudo o que queremos na altura e ao mesmo tempo não “termos” nada. Viver não na base do crédito, mas de micro-escolhas conscientes e constantes.
Imagino que a ideia repulse um bocado à primeira, mas pensem nisso aplicado à música. O esquema que existe actualmente é que uma empresa / editora vende música digital ou por CD. A grande revolução veio com o iTunes e a venda a granel de músicas por 1€ cada. No entanto esse sistema não comtempla o facto de uma pessoa ouvir essa música 1 vez ou 1000 vezes. Pensa-se sempre no “Cost of Ownership”. Mas e se não se tivesse mesmo a música ? E se em vez de custar 1€ a música custasse 10 cêntimos de cada vez que se quisesse ouvir e a cada vez que se “alugasse” a música esse preço fosse descendo até que (se gostássemos muito da música) o preço fosse tão baixo que arredondado dava zero ? Quem queria mais coisas (neste caso músicas), teria de pagar mais a médio prazo e quem gostasse muito de algo específico acabaria por “ter” essa música porque o que pagava já era desprezável.
Podíamos aqui incluir uma taxa constante para impostos, por exemplo 10%. Mas 10% do custo da música naquela compra, não 10% do preço original. Assim o imposto baixava na mesma proporção da “depreciação” (ou neste caso “apreciação”) da música.
Para haver um mercado e não ser uma ditadura-económica, para além do preço, as pessoas poderiam mexer nessa depreciação. E adoptar estratégias como começar muito caro e ter uma depreciação muito rápida ou começar barato e ter uma depreciação muito lenta.
O alugar é algo que está tipicamente reservado a empresas ou entidades do género. A minha ideia era espalhar a possibilidade de alugar a qualquer pessoa. Assim teríamos um mercado verdadeiramente competitivo (olhem para o eBay) quase peer-to-peer.
Há uma pergunta que decerto estão a fazer. E o que acontece com o “gastar” das coisas ? Sendo esse gasto nas mãos dos proprietários originais ou dos que alugam a coisa. Essa questão é inexistente no meio digital, porque nada se “gasta”, mas é um problema prático. Ainda não pensei em solução. Mas já se vende em segunda e terceira mão, tendo isso em conta o típico é o valor do produto descer.
Numa altura de crise financeira, digam lá se isto é ideia para prémio Nobel da Economia ou se me devo já inscrever no Magalhães Lemos.
deixaste-me os neurónios todos baralhados com esta. vou dormir sobre o assunto e depois falamos!
A ideia geral do empréstimo parece-me boa, embora com alguns problemas de implementação, comuns a coisas usadas. É difícil saber o estado em que está, como é que foi usado, e portanto se vale o que se está a pagar. E há a questão do retorno, dado que é emprestado.
Para as músicas e outros objectos digitais, o esquema só funcionava se existisse um servidor sempre disponível e se não se pudesse guardar o objecto. Ou pelo menos o seu uso dependesse de algum token a obter on-line associado ao registo e à cobrança. Como princípio parece-me interessante o ir baixando o preço até se tornar do próprio quando se gostasse muito.
Para os objectos físicos é que teríamos a questão do transporte. Mas com centros de empréstimo distribuídos e software de registo do uso apropriado, poder-se-ia poder usar em certos momentos em que são mais úteis muitos objectos que de outra forma nunca se comprariam. E, como se devolveria, reduzia-se a quantidade de coisas a mais em casa!
Boa.
O problema do usado era algo que parecia inresolúvel… até ao eBay. A maior fatia do mercado do eBay são bens usados. O controlo que existe não é imposto porque não há ninguém a verificar o estado das coisas. O controlo é feito indirectamente. O “mercado” é que controla as trocas. Se utilizador quer aldrabar vendendo uma coisa má, o mercado, por um sistema de reputações, catiga-o atribuindo pontos negativos e passando a imagem a outros potenciais compradores que ele não é de confiança. Também há mecanismos legais para as transferências de dinheiro.
Para este modelo funcionar de todos para todos ter-se-ia que mudar duas coisas fundamentais. Todas as trocas teriam que ser feitas num “mercado” transparente. Isto é, nada de trocas directas onde nada é registado. Este mercado pode ser real, ou até virtual. O importante é que a troca seja controlada de forma idónea para ambos os lados. Do lado dos compradores também haveria um aumento na exigência colocada aos compradores, obrigando-os a descrever completamente o produto para tal ficar registado.
Quanto às devoluções acontecerem ou não, obrigaria a um mercado real, um sítio apenas onde as pessoas se encontravam para trocar objectos registando em sistema (câmaras por exemplo) a troca. Se não houvesse devolução, o utilizador seria penalizado com pontos negativos a cada dia que se atrasasse na entrega, podendo uma ASAE entrar em funcionamento se demorasse mais que X tempo.
O conceito de mercado não é novo está embrenhado na sociedade. Desde as feiras aos shoppings estamos rodeados de potenciais mercados. O que seria necessário era um sistema sempre presente para registar as transacções, mas não é o que acontece já com o MultiBanco ? A questão do transporte coloca-se mas não é crucial. Há objectos pelos quais não saimos de casa para os comprar (filmes on demand), mas outros pelos quais estamos disponíveis a ir até outro país às vezes para os ir buscar (raridades). Tudo depende dos itens e do uso que se daria aos mercados já existentes.
Essa ideia de alugar seria para tudo?
Poderia ir à padaria e alugava meia dúzia de pães?
Poderia ir ao talho e alugava um quilo de costeletas?
Poderia ir à farmácia e alugava uma caixa de preservativos?
Poderia ir à Foz e alugava uma mulher? Espera aí… este último item, já é possível alugar…
Piadinha Remus…
É óbvio que isto não é aplicável a consumíveis, pelo exacto princípio de que se CONSOMEM !